sábado, dezembro 22, 2007

Bem-Haja!

Só para me informar que estou vivo
e que ainda não atingi o estado de demência total
já tive uns longos segundos para respirar
e os mais cépticos podem acreditar:
respirar melhora significativamente a qualidade de vida.

A agulha da vitrola foi substituída
andou vários meses a riscar o mesmo disco
agora tem Sonny
que não é uma marca de produtos electrónicos
tal como Parker não é uma marca de esferográficas
Sonny que é como aquele porto que sabe tão bem beber com este tempo frio
e com o tempo quente

sexta-feira, outubro 05, 2007

Leo Bassi

No palco
um trono no topo de umas escadas
três maças num patamar
um piano ao canto

surge por detrás do público
60+ anos
fato e gravata
óculos de armação larga preta
uma luz ilumina-o
incomoda-o
senta-se no trono e discursa
"a minha primeira provocação(...)"

muda a música
mexe-se de forma eléctrica
três maças arremessadas ao público com um pau
uma melancia explode com a força dum martelo gigante
e dança energicamente

pára.

"estou deprimido
sem energia (...)
Londres, Toquio, Berlim, Paris
agora Águeda (...)
quero morrer"
Verte liquido para o chão
para os cortinados
em si mesmo
vê-se fogo
(...)
assistia-se a uma dualidade sádica no público
o da frente rezava para que nada acontecesse
encolhia-se
o de trás descontraído
queria tudo a arder!

"há um problema
voçês começam a amar-me
não quero isso
quero que tenham medo.
podia matar quinze pessoas
haveriam 375 pessoas felizes nesta sala
e 15 não tanto
mas Portugal é um país democrático
temos de dar prazer à maioria!"

despede-se manchando com sangue a sua
"camisa branca como a minha virgindade!"
e um discurso bonito
sai em grande!
.
.
.
volta ao palco
"sair como herói é uma merda!"
faz revelações do espectáculo
chamando-nos autenticamente burros
e sai a dançar
em palmas
pela frente do palco
pelo meio do público
ainda maior.

sábado, setembro 29, 2007

Navega

de pele morena
voz sublime
beleza rara
a plateia do NewMorning
Paris
ficou rendida a Mayra.
o concerto abriu a manhã de sábado da rtp2 de forma especial
com as palavras crioulas a pairarem por cima da melodia instrumental
como legumes flutuam num caldo.
lugar também para um solo surreal
Zé Luis Nascimento (bat)
já perto do fim
a obrigatória Morna
proibida
porque arrepia
como Mariza
"Oh gente da minha terra"
impossível não ficar

domingo, setembro 09, 2007

História Trágica com Final Feliz

uma curta metragem de animação de Regina Pessoa

História Trágica com Final Feliz é a segunda curta metragem da Regina Pessoa. Este filme representa uma evolução muito interessante em relação ao seu primeiro filme, A Noite. Os jogos de luz, claro e escuro, a riqueza das texturas e detalhes do desenho aliadas a uma visão cinematográfica muito própria da animação, com inúmeros movimentos de câmara animados e perspectivas estranhas e pouco usuais que reforçam os momentos importantes do filme e lhe conferem um ambiente único e extraordinário, fazem deste segundo filme uma verdadeira preciosidade.

retirado de casa-da-animacao.pt


«Há pessoas que são diferentes. Tudo o que desejam é serem iguais aos outros. Misturarem-se deliciosamente na multidão. Há quem passe o resto da sua vida lutando para conseguir isso, negando ou tentando abafar essa diferença. Outros assumem-na e dessa forma elevam-se, conseguindo assim um lugar junto dos outros… no coração.»

retirado de História Trágica com Final Feliz, curta-metragem de Regina Pessoa


«Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas». A frase surgiu a propósito de um trabalho de gravura e serigrafia do curso de pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A frase pedia uma gravura. E a gravura, outra frase: «Isso incomodava toda a gente… Por causa do barulho… O coração batia tão alto!
Ela tentava explicar: “É um coração de pássaro… Eu estou no corpo errado!…”
“Que é que ela disse?… É tolinha… não deve durar muito…”
Então, ela fugia…
Ela só queria desaparecer… deixar-se levar pelo vento…»

Demorou três anos, e milhares de desenhos, a realizar esta história que se conta em pouco mais de sete minutos. É uma curta-metragem de Regina Pessoa, de 2005, e que não pára de arrecadar prémios entre os quais: O Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema de Animação d’Annecy 2006, considerado o «Cannes» do cinema de animação, e o principal prémio do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Barcelona, o Mecal Dosmilseis. Recentemente recebeu o Prémio de Melhor Animação da Competição Internacional do XXII Festival Internacional de Curtas-Metragens de Berlim. O reconhecimento internacional já rendeu a Regina Pessoa 45 prémios, tornando-se o «o filme português mais premiado de sempre».

retirado da entrevista a Regina Pessoa, UPorto, Dezembro de 2006; e actualizado o número de prémios


Apreciem estes curtos minutos de metragem (versão sem narração):

"As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia...
Mas uma coisa era certa… ninguém se importaria de partir assim…"

quarta-feira, setembro 05, 2007

O amote deveria ser escrito assim

Não percebo porque é que o amo-te se escreve desta forma: amo-te, quando deveria ser desta: amote. O amo-te não deveria ter hífen ou tracinho como se costuma dizer. O amote que eu falo, este, não deveria ter espaço para que nenhuma letra respirasse, para que ficassem ali as letras apertadinhas de forma a não caber mais nenhuma porque a verdade é que quando se ama alguém não cabe mais ninguém ali, porque não há espaço, porque as letras estão literalmente sufocadas por essa palavra que se deveria escrever apenas e só assim: Amote.


Alvim

domingo, agosto 26, 2007

Quem Vê, Quer Ver

Está bem e recomenda-se!
Após a nova reformulação (perdoem-me o pleonasmo mas têm sido tantas...) gráfica e da grelha de programas que a menção honrosa se impunha.
Não sei, não quero saber de shares nem acho que este canal exista por ou para isso (senão o mais provável era já nem existir).
São muitos os programas de qualidade em diferentes áreas que aqui se apresentam: Câmara Clara, Entre Pratos, Hora Discovery, A Alma e a Gente, Flip.
Nas séries poucas há no mesmo patamar a acrescentar as existentes: Anatomia de Grey, Emergency Room, 24, Os Simpsons, My Name is Earl, Friends e brevemente a última temporada da série de culto Sopranos. Talvez aproveitar algumas da falecida Sic Comédia como o grandioso Seinfeld, Black Adder, 'Allo 'Allo!, entre outras . Ou repor Curb Your Enthusiasm, a série genial de Larry David, uma vez que só a 1ª temporada por aqui passou. E Futurama!
Preenchem-se lacunas na música com a transmissão de concertos ao sábado de manhã em Palco.
Lavam-se ouvidos com a transmissão integral do Festival Internacional AngraJazz 2006.
Despertam-se mentes com Sessões Duplas de cinema nas quais o primeiro filme é de grande significado no cinema contemporâneo e o segundo um filme de "culto".
Não se exige melhor, apenas seguimento para que não seja apenas "fogo de vista" de Verão.


Continuação.

domingo, agosto 19, 2007

segunda-feira, julho 23, 2007

Somos Exterior Essencialmente

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo «isto é real», mesmo de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o Mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu Corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Exista para mim - nos momentos em que julgo que efectivamente existe -
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo.

Se a alma é mais real
Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade?
Se é mais certo eu sentir
Do que existir a coisa que sinto-
Para que sinto
E para que surge essa coisa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Coisa por coisa, o Mundo é mais certo.

Mas porque me interrogo, senão porque estou doente?

Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim,
Mas) tão sublimemente não-meu.

Quando digo «é evidente», quero acaso dizer «só eu é que o vejo»?
Quando digo «é verdade», quero acaso dizer «é minha opinião»?
Quando digo «ali está», quero acaso dizer «não está ali»?
E se isto é assim na vida, porque será diferente na filosofia?
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro facto merece ao menos a precedência e o culto.
Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
Se isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

quinta-feira, julho 12, 2007

Livro de Reclamações

Há pessoas que passam a vida a reclamar
queixam-se daquilo e daquel'outro
sentem-se injustiçadas por meio mundo
o outro meio já conspira contra elas
Suporto
mal
A posição de coitadinho não fica bem
nem ao cão tripé cá da zona
Sentem-se incompreendidas mas não se compreendem
esperam que outros façam esse trabalho por elas
porque custa
se ninguém o faz atiram-se pelo caminho mais simples:
o facilitismo na vida dos outros
o mundo é cor da rosa menos o m2 que ocupam
tudo foi mais simples antes de chegarem
sentem-se perseguidas
resta-lhes fugir
não sabem bem para onde
mal sabem para onde
já que o caminho de agir foi por elas encerrado.


uma maneira de justificar fracassos

quinta-feira, julho 05, 2007

Miles Davis: A Essência Da Música

(acompanhe a leitura com o som da vitrola e tempere a gosto.)

Escrever algo de novo sobre Miles Davis não é tarefa fácil. Miles é indiscutivelmente uma das figuras mais importantes da história do trompete, do Jazz e da Música em geral, e como tal, já muito se escreveu sobre ele, a sua vida e obra. A mim, como trompetista, apetece-me antes desfazer alguns dos mitos que se criaram à volta de Miles: “Miles Davis não tinha técnica” e “Miles Davis tocava simples e com poucas notas”.

Toda a minha vida fui confrontado com as minhas limitações técnicas de um lado e com pessoas do outro a dizer “mas o Miles não tinha técnica e tocava como tocava...”. Duma vez por todas, o Miles tem muita técnica, é verdadeiramente um virtuoso! Mas não é tecnicamente exuberante, e a sua técnica imensa consegue passar desapercebida a um ouvido menos atento. A sua grande maturidade musical também contribui para que a sua técnica não sobressaia, quando toca. Miles tem sempre presente as prioridades e a profundidade musical vem para ele acima de tudo. A sua técnica é um meio e não um fim (desculpem-me o cliché).

Mas onde está então essa técnica desmedida? Em primeiro lugar, no seu som. Na qualidade do seu som e na consistência tímbrica a toda a extensão do seu registo. Qualidade de som é técnica, consistência em todo o registo é virtuosismo técnico. Miles é de facto dos poucos trompetistas a conseguir o seu som escuro no registo grave, médio, agudo e super agudo. Dizzy Gillespie é famoso pelo seu Sol agudo, capaz de encher uma sala a um volume ensurdecedor. Miles toca o mesmo Sol agudo frequentemente e chega mesmo a um Lá agudo na famosa versão de “My Funny Valentine” (Four & More, 1964, Columbia). No entanto, ninguém diria que se trata de uma nota tão aguda. Porquê? Porque o seu timbre é escuro e igual ao do seu registo médio. De certa forma, parece que Miles está a tocar num registo médio. Grande virtuosismo técnico a passar desapercebido ao ouvinte.

Miles é possivelmente o único trompetista da história a conseguir fazer o registo super agudo soar como registo médio, sempre escuro, redondo e agradável.

O segundo mito é talvez mais difícil de desfazer. “Miles Davis tocava simples e com poucas notas”. Miles não tocava simples nem com poucas notas, sobretudo se considerarmos a carga musical que cada nota das que Miles toca contém. Usando uma analogia barata e um pouco de aritmética simples, é fácil entender que uma nota de 500 euros vale 10 vezes mais do que 10 notas de 5 euros...

Mas se o que Miles faz não é simples, como pode ser que pareça tão simples? Aqui a questão é um pouco mais delicada. Depois de introduzida a técnica de análise de Schenker (um musicólogo austríaco do começo do Século XX) ficou claro que a música é entendida e processada pelo ouvinte em diferentes níveis de entendimento, sendo que tudo acontece em simultâneo. Correndo o risco de simplificar demasiado os conceitos envolvidos, o que acontece é que num primeiro nível de entendimento ouvimos aquilo que está a ser tocado a cada momento: cada tempo, cada nota, cada acorde. Simultaneamente, num segundo nível de entendimento, o ouvinte vai juntando as peças do que já ouviu e do que está a ouvir, podendo assim tirar o sentido daquilo que ouve. Tempos agrupam-se em compassos e compassos em secções, surgindo então a noção de estrutura de um tema. Notas agrupam-se em frases formando o sentido melódico e acordes agrupam-se para dar a orientação dos movimentos harmónicos. É relacionando o que se ouve nos diferentes níveis de entendimento que se compreende emocionalmente a música. Tudo isto acontece intuitiva e naturalmente em qualquer ouvinte, por mais leigo que seja.

O músico que toca vê acontecer consigo exactamente o mesmo que acabo de descrever para o ouvinte. Aqui Miles Davis distingue-se mais uma vez da grande maioria dos músicos, mesmo os mais geniais. Miles sente a música que toca no segundo nível de entendimento enquanto que outros músicos como Charlie Parker ou John Coltrane (2 génios incontornáveis) claramente “funcionam” no primeiro nível, tocando as escalas e os arpejos de cada acorde que trabalham em cada momento. Claro que para estes, o segundo nível existe, é entendido pelos ouvintes e tudo o que tocam faz grande sentido.

Mas Miles Davis não está preocupado em saber em que acorde vai a música ou que escala ali encaixa. Miles não quer vêr à lupa, prefere antes a visão distanciada. Aquilo que o preocupa é para onde a música vai e qual o sentido profundo da mesma. Conseguir tocar em função duma visão distanciada não é simples nem é fácil e é nesse sentido que Miles é tudo menos simples.

Miles Davis toca a essência da música quando o normal para um músico é tocar a música.


João Moreira
Lisboa, Fevereiro de 2005.


(texto escrito para uma colecção do jornal "O Público")

sábado, junho 30, 2007

O Silêncio e a Música

Não ouvir...será como um absoluto espaço em branco?, um permanente silêncio, vazio total, ou um mundo próprio de imaginações...?
Tento impor-me a experiência, por alguns momentos, e resulta-me impossível e quase insuportável!

O som e a sua vibração permitem-nos ver através da imaginação um universo de referencias que complementam todos os sentidos. Ele é para a música o que a luz será para a pintura e para a fotografia, e é no cinema onde surge a conjugação mais completa de som e luz, num apelo a quase todos os sentidos.

Foi Nietzsche quem disse que sem a música a vida não faria sentido.
Ouvir música é ouvir um som interior próprio, que nos vibra na alma. É também sentir o percutir do ritmo da terra, o silvar do vento, o sino que marca a hora na distancia, o chilrear dos pássaros, a trovoada de Verão, o acorde da orquestra e o suave chorar de uma criança, até as mais insuportáveis frequências de uma maquina industrial. Mas é, acima de tudo, a capacidade de sentir uma vibração interior.

Beethoven terá sido quem mais ouviu a música de uma forma interior.
Privado ainda jovem daquela que era a sua mais valiosa faculdade, exteriorizou através da partitura todo esse enorme som e vibração que levava na alma, de uma forma genial e comovedora. Foi a breve experiência de sons ouvidos e retidos na memoria que permitiu a Beethoven imaginar novos sons e criar um universo musical sem precedente, e tantas vezes tão incompreendido.

De alguma forma todos nós ouvimos uma música interior que nos põe em harmonia com o que nos rodeia. Cada um ouve e sente a sua própria música e cada um ouve também o silencio. É o silencio na música que suspende e prolonga o tempo da emoção. Sem o silencio a separá-las, as quatro primeiras notas da quinta sinfonia não teriam o mesmo significado.

Dizem-me os que "não" ouvem quem sentem essa vibração interior e física das graves frequências e que, para eles, também essa é "a sua música".

Há coisas que só podemos perceber na ausência das mesmas... Sem silencio, também não haveria música. E a música existe em cada um de nós.



Texto de Laurent Filipe, Músico
Retirado do livro "Um Minuto de Silêncio"

sábado, junho 16, 2007

Excerto da entrevista a Álvaro Siza

Conseguir uma entrevista com Álvaro Siza pode demorar.
Não pára, entre obras, em Portugal e no estrangeiro, prémios, solicitações.
Finalmente combina: um sábado, e “se prescindir do almoço”. Interrompe uma reunião para receber o Ípsilon, e não almoça - como acontece frequentemente. Mas quando começa a conversar, calmamente, com voz grave e os cigarros a sucederem-se, esquece o tempo. Enquanto está ali está realmente ali. Deve ser assim quando trabalha.

Os críticos de arquitectura têm um discurso teórico, poético, sobre o seu trabalho. Mas quando o ouvimos, fala muito de coisas concretas, do terreno, da paisagem, dos problemas que enfrentou num projecto. Como gere a relação entre esse lado concreto e o discurso mais abstracto?
O simples é muito complicado.
Não sou de discursos complexos e provavelmente tenho lacunas de informação que me fazem restringir um pouco ao que é mais concreto. Há discursos sobre arquitectura que são tratados de filosofia. Não tenho essa formação específica, prefiro, sobretudo quando estou a dialogar com alguém para fazer um projecto, usar uma linguagem do quotidiano, e não vejo necessidade de outra coisa.
Há coisas que não discutimos, porque são já muito interiores. Têm a ver com aquilo que um autor pretende da arquitectura e que vai para lá dos problemas que interessam às pessoas. Um arquitecto quando faz uma casa não quer simplesmente que funcione bem, há mais do que isso. Pode-se construir numa zona belíssima, com uma paisagem extraordinária, ou numa zona feia mas que funcione como outro tipo de estímulo.
Quando se trata de uma casa com uma paisagem lindíssima, claro que o nosso interlocutor diz que quer um grande envidraçado ali, e às vezes a gente diz que não, por isto ou por aquilo. No fundo, são coisas do dia-a-dia. As outras não as debatemos.

É ai que entra a arte, depois de resolvidos os problemas?
Não é depois, é em simultâneo. Em arquitectura evidentemente que não é tudo ao mesmo tempo, mas tão pouco é “primeiro pensamos isto, depois pensamos aquilo”. É mais um processo em zigue-zague. Tudo o que se pense para resolver um problema depende de outro. Não acredito nos resultados de um método linear, em que entre primeiro a função, depois a forma. É um improviso, mas não é um improviso louco, tem uma partitura que cai quase naturalmente.

E qual é a sua relação com esse discurso critico, quase lírico sobre a arquitectura?
Eu, como todo o ser humano, comovo-me, mas não me sento numa mesa a dizer: “Bom, vou fazer uma coisa comovente, quero que isto seja poético”. O material e o espiritual estão profundamente ligados.
(…)
Mas não há duvida de que há qualquer coisa que liga os episódios, os espaços, as formas na arquitectura, que provoca uma reacção, uma maneira de estar, mas que não é sempre a mesma, felizmente. Pode conter emoções, sensação de conforto, melancolia, sei lá, mas há uma coisa que também sei: uma pessoa pode sentir o cúmulo da felicidade numa casa horrível, desconfortável, e numa casa maravilhosa pode sentir-se de rastos. Essa é a margem em que a arquitectura não impõe a vida às pessoas e quando tenta impor isso é ilegítimo, objectivamente ilegítimo.

Atingiu um estatuto que impede que haja um discurso crítico sobre o seu trabalho?
Não é verdade. Não há um discurso consensual. Isso vê-se até por omissão: há críticos que se interessam pela minha obra e a citam quando historiam um momento, e outros que nem citam, porque não lhes interessa para o programa de tendência que estão a apoiar.

Não tem essa ideia de que cada projecto que faz é sempre considerado genial?
De maneira nenhuma. O que pode haver é um receio de dizer mal e de ser erro – eu interpreto assim. E também há o contrário, a pancada mais violenta, brutal, e por vezes mal-educada.
(…)

Tem consciência que a sua influência e o seu trabalho são como uma sombra que paira sobre os estudantes de arquitectura em Portugal?
Isso é um sintoma natural num estudante de arquitectura até pelo menos metade do curso. Eu não sou dos que se esquece dos tempos de estudante. Lembro-me que a princípio um estudante fixa-se num arquitecto ou dois ou três. No tempo em que iniciei o curso, para a escola toda a sombra protectora e estimulante era Le Corbusier. Havia muito pouca informação, o país era fechado. Hoje há a viagem, que está ao alcance dos estudantes. [O horizonte] abriu-se, não há essa fixação. Mas há sempre um pouco, porque a pessoa interessa-se mais por determinado arquitecto ou tendência e está concentrada nisso. O processo de aprendizagem é o processo de abertura.

O que é que lhes aconselha para encontrarem uma voz própria?
Ninguém pode aconselhar a encontrarem a própria voz. Eles encontram-na. E outros não encontram, porque se interessam por outras coisas. Não acredito nessa coisa da vocação. Acredito em influências que canalizam para determinados interesses, mas não acredito que fulano nasceu para arquitecto, ou cicrano para médico. Interessou-se, estudou, houve uma convergência de razões que o levaram a fazer aquela opção. Ou às vezes até por acaso. Já contei não sei quantas vezes que eu não queria ir para arquitectura.
(…)

Dos grandes músicos diz-se que há pessoas que por muito que trabalhem nunca serão mais do que muito correctos. Isso também existe em arquitectura?
Existe, acho que existe em tudo. E existe outra coisa que é a febre de atingir o tal patamar de que fala. Não me parece que essa ansiedade seja muito favorável.

Uma ansiedade que é alimentada pelo universo dos arquitectos-estrela.
Bastante. São coisas muito boas essa divulgação, a atenção, a informação que existe. Mas também pode haver distorções no que acontece com isso. Mas que seja possível a arquitectura sem muito trabalho, não.
E uma coisa que é fundamental é a crítica, a auto-crítica. Desenvolver um projecto é um exercício de crítica. É por isso que hoje são equipas grandes e há muitos interlocutores e decisores, e é bom no sentido em que não há um voluntário, ou involuntário, deslizar para a auto-complacência. (…)

A sua arquitectura pode parecer despojada. Mas é muito complexa. Concorda?
A simplicidade é muito complexa. Concordo em absoluto
Há uma coisa no nosso trabalho que é a depuração do que está a mais. O desenvolvimento de um projecto é muito de catar o que está a mais, e que tira a clareza da imagem. Um exemplo: hoje quando se faz um edifício público, um museu, tem que se pôr uma rede complexa de dispositivos de segurança, contra o fogo, de protecção de roubos, ar condicionado, que tem grelhas, aparelhozinhos de controlo, câmaras de vigilância, um mundo de objectos. E se se quiser criar um espaço apto a receber o que lá se vai pôr, exposições, instalações, não é bom que esse mundo de infra-estruturas apareça. Uma das coisas em que perdemos um tempo que não se supõe é no estudo feito com engenheiros para conseguir que esse mundo complexo não vá afectar a pureza do espaço. São horas e horas e horas, que não se sonha.




Suplemento Ípsilon do jornal Público,

sexta-feira
15 junho 2007

segunda-feira, maio 28, 2007

Deolinda Rodrigues

Hoje vi o programa Fátima minto não todo mas o que tinha que se visse . Já assisti a algumas homenagens enfadonhas destes programas vazios das manhas vazias. Hoje foi diferente. Não estava ali ninguém a ser filmado estava tudo como em casa num convívio de transparência. Há pessoas excepcionais que ouvimos poucos minutos e que nos marcam profundamente. Hoje foi assim. Não houve choradeira não houve palavras a mais nem frases de ocasião minto a única vez que houve Ela rejeitou de imediato. Ouvi o fado com 83 (!) e arrepiei-me. No final um quadro onde se lê


Dotada de arte e bom gosto
No seu jeito delicado,
A Deolinda marca um posto
Dos mais altos que há no Fado!

Subiu momento a momento
E logo breve se impôs,
P´la força do seu talento
E o mimo da sua voz!

Nesta Artista nunca finda
O que de bom ela tem,
É Deolinda por ser linda
Rodrigues por cantar bem!



Versos de: Carlos Conde

sábado, maio 19, 2007

Estagnação

Quantas vezes foram ao teatro? leram um livro que vos mostrou algo de novo?
E filmes, têm gostado do que veem?
Novo?
Criticam o que ouvem? o que dizem?
Engole-se sem mastigar.
Já alguém teve coragem, característica fundamental, para ouver a vitrola digital?
Falta de tempo
Perda de tempo
Desculpa acomodada.
Não se pára escuta olha
Passa-se
E fica-se no mesmo sitio.

sábado, maio 12, 2007

"Do You Speak Jazz?"

Era uma vez uma jovem que não sabia falar inglês.
A jovem não se importava nada em não saber falar e escrever inglês, até porque inglesa não era.
Queria ela lá saber o que queria dizer auduiudu ou gudenaite, não lhe fazia falta, ela era e é portuguesa e sabia, isso sim, escrever e falar português, embora tivesse lido pouco Camões…

Até que um dia, ele há sempre um dia, a jovem - que se chamava Maria - decidiu passar a falar e a escrever inglês com ingleses e inglesas e com os de outras nacionalidades que já soubessem falar e escrever em inglês.
Era uma melhoria de vida, pensou e disse, uma maneira de melhor usar as suas capacidades de comunicação e apreensão de outra Cultura, uma nova Técnica que poria à disposição do seu intelecto.
Meu dito, meu feito.
Começou por aprender vocabulário, depois pronúncia, a mais correcta possível, gramática, sintaxe e, pouco a pouco, estava a dominar uma nova linguagem.
Foi com orgulho que um dia cumprimentou e desejou boa noite a um jovem turista que falava mal inglês - já opinião de Maria - que lhe perguntara onde é a Vasco da Gama bridge!.
Maria sentiu-se melhor, enfim mais culta, mais, mais Maria.
Ao que se sabe Maria não tem parado de desenvolver a nova linguagem que aprendeu afinal tão bem.
Já embirra com as legendas dos filmes falados em Inglês e já foi a Inglaterra, até à Escócia, onde o sotaque é outro mas também a tratam por Mary.

Com o jazz passa-se exactamente o mesmo, sem tirar nem pôr.
Jazz é só e apenas uma linguagem musical, com convenções estéticas e regras formais diferentes daquelas com que fomos educados.
Só sabemos, quando sabemos, da Música com a qual crescemos!
Temos espaço e capacidade para muito mais Música, Música que ponha a funcionar as adormecidas circunvalações do nosso cérebro musical.

Todos queremos ser melhores.
Ser melhor musicalmente,
é também entender um discurso improvisado por um músico solista,
é também acentuar os tempos fracos do compasso,
é também respeitar e admirar dissonâncias e erros,
é também admitir o uso total de um qualquer instrumento de sopro ou percussão, é também saber e gostar de jazz.

Quem sabe ouvir jazz, sabe ouvir outras músicas.
O contrário não é verdade.
Os apreciadores de jazz não podem ser uma eterna minoria!
Assim: oiça Armstrong como ouve Stravinsky,
Billie como Callas,
Jim Hall como Jimmy Hendrix,
Coltrane como Gould.

Visite o jazz.

Encontrará beleza nova.

*texto provavelmente de José Duarte, inserido numa iniciativa de divulgação do Jazz às crianças nas escolas.
http://www.uarte.rcts.pt/activ/jazz/apoio.asp

terça-feira, maio 01, 2007

Hot Five


Cai a noite.
As ruas da Invicta transformam-se
O movimento agora é silencio
Veem-se pedintes prostitutas samaritanos drogados
E estrangeiros que se passeiam.
Chega a hora
o Hot é o local
Espera-se ansiosamente pelo inicio
Rui Azul Index - A História do Jazz & Blues

1,2,1,2,3,4


Fica mui bem contada
e soberbamente tocada
Termina
O cbaixista Alberto Jorge acende de imediato um cigarro e senta-se à conversa
3h
Está na hora

quarta-feira, abril 25, 2007

25 4 74

25 Abril 1989 (terça). Hoje é festa de aniversário. A revolução faz 15 anos e está uma mulherzinha. De modo que todos lhe fazem olho com vistas a um futuro matrimónio estável. Os tropas estão furiosos e não desistem de casar com ela. Mas há outros concorrentes e espera-se que ela faça uma escolha sensata. Tropa mete maus tratos e ela é muito delicada para aguentar um regime de caserna. Aguardemos a sua opção definitiva. Se bem que seja já quase definitivo que ela se não incline para o quartel.

Ao mesmo tempo celebram-se os 100 anos do grande Salazar. Eu fiz uma brincadeira a propósito, como anoto atrás, mas ignoro ainda se houve escândalo no remanescente salazarista. Curiosamente começa-se agora a admitir que Salazar teve razão contra os comunistas. Teve-a, decerto, mas a posteriori. Ora é no tempo dele que a coisa se tem de olhar. Um dia contaram-me em rapaz uma história para eu pôr à prova o meu intelecto. Foi o caso que um guarda de um banco certo dia avisou os donos dele que sonhara que o banco ia ser assaltado no dia seguinte. Tomaram- se as providências e quando o banco foi de facto assaltado, capturaram-se os assaltantes, mas o guarda, depois de magnificamente recompensado, foi despedido. Porquê? Porque um guarda não deve deixar-se adormecer. Hoje Salazar poderia ser recompensado da sua prevenção. Mas deveria ser à mesma condenado pela sua repressão que não tinha razão de ser porque só hoje a poderia ter. Por mero acaso. Aliás, ou por isso, toda a sua repressão iria muito além dos comunistas e apanhou na rede imensa gente anticomunista, foi injustificável, até porque em parte alguma o comunismo triunfou mesmo após a guerra e não por opção de qualquer país mas por imposição à força. Não houve comunismo senão nos países de Leste por isso mesmo. E mesmo aí desmoronou-se. A ter razão, Salazar só a tinha tido aqui durante alguns anos. Mas o salazarismo não foi só isso. Foi uma submersão do país em beatério, medo da Pide, atraso cultural e sobretudo talvez a imposição de um modo de ser campónio. Salazar foi um atrasado ruralista, primitivo. É possível que a sua intervenção travasse salutarmente os desmandos da 1ª República, embora neles a reacção monárquica tivesse colaborado. Mas depois disso, jamais facilitou uma transição para um regime civilizado. E no domínio económico, tinha ódio à industrialização. 'Se quereis ser ricos, industrializai-vos. Mas não vo-lo aconselho'. Assim o disse e o fez. Do mesmo passo, com uma mentalidade antepassada, sustentou uma guerra absurda contra 'os chamados ventos da História'. Não promoveu uma progressiva autonomia das colónias, imobilizou-se num século de há séculos. Salazar foi grande à sua maneira. Inteligente, obstinado, disciplinado, organizador, honesto à sua maneira, impecável à sua maneira. Mas a sua maneira, sobretudo a partir dos primeiros anos, foi um erro histórico. Do mesmo modo a sua ajuda ao fascismo espanhol na guerra é altamente problemática num domínio de uma segura visão histórica. É ir depressa no julgar-se que de outro modo o comunismo se implantaria em Espanha, extravasando para aqui. A luta governamental não era a fortioria do comunismo. Estaline, aliás, fazilou os soviéticos que por lá andaram. Porquê? Salazar é uma figura histórica. Mas não chega para ter direito a um pedestal.
Tinha mais ideias engatilhadas, mas passaram-me e (Interrompido).



25 de Abril de 1989

Vergílio Ferreira

domingo, abril 15, 2007

Pensa dor

A perfeição chega até a ter defeito.

domingo, março 25, 2007

"Sabíamos que íamos fazê-lo"

Quem o diz é Tomaz Morais, seleccionador nacional de Râguebi. É notável o feito destes jogadores: uma equipa amadora, isto é, nenhum deles faz do Râguebi vida, estudam uns, outros trabalham, consegue ultrapassar selecçoes profissionalizadas há vários anos. É o resultado de "um grupo excepcional, muito querer e talento."
Tal como admiro Tomaz Morais, a maturidade de Pedro Leal, o fisico imponente de Vasco Uva, ontem o destaque individual vai naturalmente para Cardoso Pinto. Foram 4 pontapés certeiros que valeram 12 pontos a Portugal.
Mas é injusto fazer destaques individuais a um grupo tão coeso como este.
São um só.
E que emoção no final.
Parabéns!

sábado, março 24, 2007

Porque ser do Sporting é muito mais que números


Fiquei saudoso depois de ver a Selecção. Respira-se juventude e bom futebol, ainda que nem sempre tenha a eficacia que todos desejam.
É claro que fica um carinho especial por cada jogador que passa pela formação do Sporting, ainda mais por aqueles que conseguem atingir a equipa principal e um dia a Selecção Nacional.
Muito se fala por o clube não conseguir segurar os craques, concordo, mas também sei o que é a cabeça dum jovem quando sabe que pode atingir o topo e ficar sob o olhar de uma massa muito maior de pessoas em menos de nada. É um dilema complicado para o clube.
O Sporting há muito que é um clube de formação e isso não é só ir buscar miúdos que dão nas vistas. É preciso ter um ambiente de treino óptimo, um bom nivel competitivo no clube e acima de tudo pessoas que saibam trabalhar, ensinar e também brincar com eles. Treinar um miudo nao é o mesmo que treinar um veterano!
Este ano o Sporting deu um passo grande nesse sentido: quase nada de contrataçoes, muita aposta em jogadores formados no clube. Se calhar foi feito porque nao se vivem tempos faceis de finanças e esta seria a soluçao logica.
Mas não é o clube com mais titulos nem com a maior notoriedade no estrangeiro. Reconheço. Nada me custa dizer que o Porto se encontra neste momento um degrau acima dos restantes, muito por culpa dum Jesus que por lá andou a transformar Lázaros em verdadeiras estrelas do futebol (por isto e muito mais o admiro).
Sobre o Benfica que dizer? A irracionalidade domina. Não o digo como coisa negativa, tomara que todos os adeptos fossem tao vincados no clube como estes. Quando o arbitro apita só existe aquilo, nada mais interessa e nada pode jamais atingir o estatuto daquele emblema.

..já me estendi no assunto.

O Sporting tenta criar uma base sólida, construir um jogador fisica, tecnica e psicologicamente e quando chega a hora é obrigado a soltá-lo para algo maior. Nem sempre corre bem (lesões, treinadores embirrentos, etc) e regressam ao país. Assinam contrato com outro clube. O Sporting não tem finanças elasticas.
Dói vê-los vestidos de outras cores.
Mas outros já crescem preenchendo os vazios.

Tão lucido que até dói

"It is obvious that disc-jockeys, as a class, are essentially parasitic. We are, with lamentably few exceptions, neither creative nor productive. We have, however, manipulated the creations of others (records) to provide ourselves with reputations as arbiters of public taste. There is no more reason (or no less) why I should be writing this column than you -- however I am in this unmerited position and you're not. I believe very much in radio as a medium of tragically unrealised possibilities and also the music i play. Therefore accepting the falseness of my own precarious position I will do what I can, wherever I can, to publicise these good things I hear around me. These musicians have made you aware of, and appreciative of, their music -- not J. Peel."

John Peel, Disc and Music Echo, 1969

sábado, março 17, 2007

Chelsea, homens e máquinas

Não existem fantasmas, existe futebol de verdade. Humano, fora do campo. Feito de máquinas, dentro dele. A crónica da Champions vinda do interior de Stamford Bridge.

Stamford Bridge não é Anfield ou Old Trafford. Falta-lhe o peso histórico daquelas catedrais. Não tem à porta estátuas de mitos do passado, e mesmo os ténues sinais de outras eras foram engolidos pela babilónia dos tempos modernos, o Chelsea de Abramovich. Dois mundos, duas épocas que se confundem tal como a Chelsea Village -hotel, restaurantes, condomínio e healht club- sufoca o bairro elitista. No meio, um Estádio de futebol que combina camarotes modernos com velhas bancadas de imprensa em madeira. E uma equipa de futebol. Em campo, nunca mexe um nervo da face. Quando os jogadores olham para o banco e vêem o seu líder impassível, quase como se tivesse escrito um pacto sobrenatural com o destino, sentem que já ganharam o jogo mesmo que então o estejam a perder. É uma coisa que não se explica, sente-se. E o futebol, sobretudo os jogadores em campo, vivem muito de sentimentos. De emoções. Sentir confiança ou medo. Serenidade ou nervosismo. O Chelsea é um bloco de gelo. Para o bem e para o mal. Para o bem do seu sucesso desportivo, num tempo em que o futebol caiu no fosso da táctica como poção mágica da vitória. Para o mal dos amantes de outro futebol, aquele que nos faz levantar das cadeiras quando os jogadores pegam na bola. Toda este mundo começa, porém, fora do relvado. Nesse outro espaço, onde também se joga, o reino dos blues é outro, moldado pela cultura do futebol inglês.

Dia de jogo na Champions, tensão no ar. Passo o dia no interior do Estádio, entre o relvado, os corredores dos balneários e a sala de imprensa. Não é preciso muito tempo para perceber que essa tensão está mesmo é dentro de nós. O staff do Chelsea é invisível. A meio da tarde, nos mesmos espaços, os jogadores passeiam como todos fizéssemos parte do mundo. E fazemos, de facto. Lampard procura algo para lanchar, Makelele pisca o olho, sorri, trocam-se palavras, passa Mourinho, brinca, diz que não, não estou nada mais magro, conversa circunstancial mas respirando futebol. Nesses instantes percebe-se onde podem começar-se a ganhar os jogos. Não existem fantasmas, existe futebol de verdade. Humano, fora do campo. Feito de máquinas, dentro dele. Não há espaço para receios. Duvido que nos ipods ouçam o som dos Clash ou dos Sex Pistols, pais do punk que nos anos 70 nasceu nas mesmas ruas, mas há um carácter para um império.
Se, depois, em campo, todo este elo ameaça partir-se, emerge Drogba. Quando o jogo pára, chega a ir ter, um por um, com todos os jogadores e transmite-lhes garra, com gritos e gestos. Todos? Bem, quase todos. Há outro que, entretanto já pegou na bola, para, mesmo com o jogo parado, continuar a controlá-lo: Lampard. São os gigantes do futebol moderno.



por Luis Freitas Lobo

quinta-feira, março 08, 2007

www.JazzPortugal.ua.pt

Todos deviam aprender um pouquinho de jazz
Ter um pouquinho de swing
Ter os seus solos
Enganar-se e rir-se com isso
Sei muito pouco de jazz
Cada vez menos
Porque cada vez mais descubro o mundo que é
José Duarte bem diz
"Quem diz que não gosta é porque não conhece"
Certo!
O meu conhecimento de música é Zero
Zero é bom, é redondo
Aprendi um pouco da história do jazz
Um pouco de cada artista
Que é aquele que faz arte
O resto é ouver!

Jazz tem entrada fácil
Saída dificil.

Subscreva!

Equilibrio

Sinto vontade de escrever mas não o tenho feito
É que sempre que pego na página em branco
Saltam ideias por todo o lado
Pontos de vista
Opiniões que constroem e desconstroem a minha linha de pensamento
Curva
Quadrado é a pior forma que Há
Fecho a caneta
Aquela que mesmo sem tinta escreve
Desligo o meu pensamento
Não por preguiça
Mas transmitir ideias não é igual a demonstrar fórmulas
Pontas soltas têm de levar nó!

Tento encontrar explicações lógicas
Quando não encontro digo que a explicação é essa
Stand-By
Desconfio de muita coisa
Confio na outra parte
Construo-me com os outros mesmo que tenham palas
Não é qualquer um que tira palas
Nem qualquer um que as quer tirar
Ser racional é best i al
Quando sei que subi um degrau
Ou ajudei alguém a subir
Não sei se estou +perto da meta
Mas certeza que estou +longe do ponto partida
É a minha forma de encontrar um equilibrio natural
Não enlouquecer num mundo de doidos.