Não existem fantasmas, existe futebol de verdade. Humano, fora do campo. Feito de máquinas, dentro dele. A crónica da Champions vinda do interior de Stamford Bridge.Stamford Bridge não é Anfield ou Old Trafford. Falta-lhe o peso histórico daquelas catedrais. Não tem à porta estátuas de mitos do passado, e mesmo os ténues sinais de outras eras foram engolidos pela babilónia dos tempos modernos, o Chelsea de Abramovich. Dois mundos, duas épocas que se confundem tal como a Chelsea Village -hotel, restaurantes, condomínio e healht club- sufoca o bairro elitista. No meio, um Estádio de futebol que combina camarotes modernos com velhas bancadas de imprensa em madeira. E uma equipa de futebol. Em campo, nunca mexe um nervo da face. Quando os jogadores olham para o banco e vêem o seu líder impassível, quase como se tivesse escrito um pacto sobrenatural com o destino, sentem que já ganharam o jogo mesmo que então o estejam a perder. É uma coisa que não se explica, sente-se. E o futebol, sobretudo os jogadores em campo, vivem muito de sentimentos. De emoções. Sentir confiança ou medo. Serenidade ou nervosismo. O Chelsea é um bloco de gelo. Para o bem e para o mal. Para o bem do seu sucesso desportivo, num tempo em que o futebol caiu no fosso da táctica como poção mágica da vitória. Para o mal dos amantes de outro futebol, aquele que nos faz levantar das cadeiras quando os jogadores pegam na bola. Toda este mundo começa, porém, fora do relvado. Nesse outro espaço, onde também se joga, o reino dos blues é outro, moldado pela cultura do futebol inglês.
Dia de jogo na Champions, tensão no ar. Passo o dia no interior do Estádio, entre o relvado, os corredores dos balneários e a sala de imprensa. Não é preciso muito tempo para perceber que essa tensão está mesmo é dentro de nós. O staff do Chelsea é invisível. A meio da tarde, nos mesmos espaços, os jogadores passeiam como todos fizéssemos parte do mundo. E fazemos, de facto. Lampard procura algo para lanchar, Makelele pisca o olho, sorri, trocam-se palavras, passa Mourinho, brinca, diz que não, não estou nada mais magro, conversa circunstancial mas respirando futebol. Nesses instantes percebe-se onde podem começar-se a ganhar os jogos. Não existem fantasmas, existe futebol de verdade. Humano, fora do campo. Feito de máquinas, dentro dele. Não há espaço para receios. Duvido que nos ipods ouçam o som dos Clash ou dos Sex Pistols, pais do punk que nos anos 70 nasceu nas mesmas ruas, mas há um carácter para um império.
Se, depois, em campo, todo este elo ameaça partir-se, emerge Drogba. Quando o jogo pára, chega a ir ter, um por um, com todos os jogadores e transmite-lhes garra, com gritos e gestos. Todos? Bem, quase todos. Há outro que, entretanto já pegou na bola, para, mesmo com o jogo parado, continuar a controlá-lo: Lampard. São os gigantes do futebol moderno.
por Luis Freitas Lobo
1 comentário:
Um senhor comentador, o Luís Freitas Lobo. Gosto muito dele... o inverso proporcional ao Gabriel Alves.
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