sábado, junho 30, 2007

O Silêncio e a Música

Não ouvir...será como um absoluto espaço em branco?, um permanente silêncio, vazio total, ou um mundo próprio de imaginações...?
Tento impor-me a experiência, por alguns momentos, e resulta-me impossível e quase insuportável!

O som e a sua vibração permitem-nos ver através da imaginação um universo de referencias que complementam todos os sentidos. Ele é para a música o que a luz será para a pintura e para a fotografia, e é no cinema onde surge a conjugação mais completa de som e luz, num apelo a quase todos os sentidos.

Foi Nietzsche quem disse que sem a música a vida não faria sentido.
Ouvir música é ouvir um som interior próprio, que nos vibra na alma. É também sentir o percutir do ritmo da terra, o silvar do vento, o sino que marca a hora na distancia, o chilrear dos pássaros, a trovoada de Verão, o acorde da orquestra e o suave chorar de uma criança, até as mais insuportáveis frequências de uma maquina industrial. Mas é, acima de tudo, a capacidade de sentir uma vibração interior.

Beethoven terá sido quem mais ouviu a música de uma forma interior.
Privado ainda jovem daquela que era a sua mais valiosa faculdade, exteriorizou através da partitura todo esse enorme som e vibração que levava na alma, de uma forma genial e comovedora. Foi a breve experiência de sons ouvidos e retidos na memoria que permitiu a Beethoven imaginar novos sons e criar um universo musical sem precedente, e tantas vezes tão incompreendido.

De alguma forma todos nós ouvimos uma música interior que nos põe em harmonia com o que nos rodeia. Cada um ouve e sente a sua própria música e cada um ouve também o silencio. É o silencio na música que suspende e prolonga o tempo da emoção. Sem o silencio a separá-las, as quatro primeiras notas da quinta sinfonia não teriam o mesmo significado.

Dizem-me os que "não" ouvem quem sentem essa vibração interior e física das graves frequências e que, para eles, também essa é "a sua música".

Há coisas que só podemos perceber na ausência das mesmas... Sem silencio, também não haveria música. E a música existe em cada um de nós.



Texto de Laurent Filipe, Músico
Retirado do livro "Um Minuto de Silêncio"

sábado, junho 16, 2007

Excerto da entrevista a Álvaro Siza

Conseguir uma entrevista com Álvaro Siza pode demorar.
Não pára, entre obras, em Portugal e no estrangeiro, prémios, solicitações.
Finalmente combina: um sábado, e “se prescindir do almoço”. Interrompe uma reunião para receber o Ípsilon, e não almoça - como acontece frequentemente. Mas quando começa a conversar, calmamente, com voz grave e os cigarros a sucederem-se, esquece o tempo. Enquanto está ali está realmente ali. Deve ser assim quando trabalha.

Os críticos de arquitectura têm um discurso teórico, poético, sobre o seu trabalho. Mas quando o ouvimos, fala muito de coisas concretas, do terreno, da paisagem, dos problemas que enfrentou num projecto. Como gere a relação entre esse lado concreto e o discurso mais abstracto?
O simples é muito complicado.
Não sou de discursos complexos e provavelmente tenho lacunas de informação que me fazem restringir um pouco ao que é mais concreto. Há discursos sobre arquitectura que são tratados de filosofia. Não tenho essa formação específica, prefiro, sobretudo quando estou a dialogar com alguém para fazer um projecto, usar uma linguagem do quotidiano, e não vejo necessidade de outra coisa.
Há coisas que não discutimos, porque são já muito interiores. Têm a ver com aquilo que um autor pretende da arquitectura e que vai para lá dos problemas que interessam às pessoas. Um arquitecto quando faz uma casa não quer simplesmente que funcione bem, há mais do que isso. Pode-se construir numa zona belíssima, com uma paisagem extraordinária, ou numa zona feia mas que funcione como outro tipo de estímulo.
Quando se trata de uma casa com uma paisagem lindíssima, claro que o nosso interlocutor diz que quer um grande envidraçado ali, e às vezes a gente diz que não, por isto ou por aquilo. No fundo, são coisas do dia-a-dia. As outras não as debatemos.

É ai que entra a arte, depois de resolvidos os problemas?
Não é depois, é em simultâneo. Em arquitectura evidentemente que não é tudo ao mesmo tempo, mas tão pouco é “primeiro pensamos isto, depois pensamos aquilo”. É mais um processo em zigue-zague. Tudo o que se pense para resolver um problema depende de outro. Não acredito nos resultados de um método linear, em que entre primeiro a função, depois a forma. É um improviso, mas não é um improviso louco, tem uma partitura que cai quase naturalmente.

E qual é a sua relação com esse discurso critico, quase lírico sobre a arquitectura?
Eu, como todo o ser humano, comovo-me, mas não me sento numa mesa a dizer: “Bom, vou fazer uma coisa comovente, quero que isto seja poético”. O material e o espiritual estão profundamente ligados.
(…)
Mas não há duvida de que há qualquer coisa que liga os episódios, os espaços, as formas na arquitectura, que provoca uma reacção, uma maneira de estar, mas que não é sempre a mesma, felizmente. Pode conter emoções, sensação de conforto, melancolia, sei lá, mas há uma coisa que também sei: uma pessoa pode sentir o cúmulo da felicidade numa casa horrível, desconfortável, e numa casa maravilhosa pode sentir-se de rastos. Essa é a margem em que a arquitectura não impõe a vida às pessoas e quando tenta impor isso é ilegítimo, objectivamente ilegítimo.

Atingiu um estatuto que impede que haja um discurso crítico sobre o seu trabalho?
Não é verdade. Não há um discurso consensual. Isso vê-se até por omissão: há críticos que se interessam pela minha obra e a citam quando historiam um momento, e outros que nem citam, porque não lhes interessa para o programa de tendência que estão a apoiar.

Não tem essa ideia de que cada projecto que faz é sempre considerado genial?
De maneira nenhuma. O que pode haver é um receio de dizer mal e de ser erro – eu interpreto assim. E também há o contrário, a pancada mais violenta, brutal, e por vezes mal-educada.
(…)

Tem consciência que a sua influência e o seu trabalho são como uma sombra que paira sobre os estudantes de arquitectura em Portugal?
Isso é um sintoma natural num estudante de arquitectura até pelo menos metade do curso. Eu não sou dos que se esquece dos tempos de estudante. Lembro-me que a princípio um estudante fixa-se num arquitecto ou dois ou três. No tempo em que iniciei o curso, para a escola toda a sombra protectora e estimulante era Le Corbusier. Havia muito pouca informação, o país era fechado. Hoje há a viagem, que está ao alcance dos estudantes. [O horizonte] abriu-se, não há essa fixação. Mas há sempre um pouco, porque a pessoa interessa-se mais por determinado arquitecto ou tendência e está concentrada nisso. O processo de aprendizagem é o processo de abertura.

O que é que lhes aconselha para encontrarem uma voz própria?
Ninguém pode aconselhar a encontrarem a própria voz. Eles encontram-na. E outros não encontram, porque se interessam por outras coisas. Não acredito nessa coisa da vocação. Acredito em influências que canalizam para determinados interesses, mas não acredito que fulano nasceu para arquitecto, ou cicrano para médico. Interessou-se, estudou, houve uma convergência de razões que o levaram a fazer aquela opção. Ou às vezes até por acaso. Já contei não sei quantas vezes que eu não queria ir para arquitectura.
(…)

Dos grandes músicos diz-se que há pessoas que por muito que trabalhem nunca serão mais do que muito correctos. Isso também existe em arquitectura?
Existe, acho que existe em tudo. E existe outra coisa que é a febre de atingir o tal patamar de que fala. Não me parece que essa ansiedade seja muito favorável.

Uma ansiedade que é alimentada pelo universo dos arquitectos-estrela.
Bastante. São coisas muito boas essa divulgação, a atenção, a informação que existe. Mas também pode haver distorções no que acontece com isso. Mas que seja possível a arquitectura sem muito trabalho, não.
E uma coisa que é fundamental é a crítica, a auto-crítica. Desenvolver um projecto é um exercício de crítica. É por isso que hoje são equipas grandes e há muitos interlocutores e decisores, e é bom no sentido em que não há um voluntário, ou involuntário, deslizar para a auto-complacência. (…)

A sua arquitectura pode parecer despojada. Mas é muito complexa. Concorda?
A simplicidade é muito complexa. Concordo em absoluto
Há uma coisa no nosso trabalho que é a depuração do que está a mais. O desenvolvimento de um projecto é muito de catar o que está a mais, e que tira a clareza da imagem. Um exemplo: hoje quando se faz um edifício público, um museu, tem que se pôr uma rede complexa de dispositivos de segurança, contra o fogo, de protecção de roubos, ar condicionado, que tem grelhas, aparelhozinhos de controlo, câmaras de vigilância, um mundo de objectos. E se se quiser criar um espaço apto a receber o que lá se vai pôr, exposições, instalações, não é bom que esse mundo de infra-estruturas apareça. Uma das coisas em que perdemos um tempo que não se supõe é no estudo feito com engenheiros para conseguir que esse mundo complexo não vá afectar a pureza do espaço. São horas e horas e horas, que não se sonha.




Suplemento Ípsilon do jornal Público,

sexta-feira
15 junho 2007