segunda-feira, julho 23, 2007

Somos Exterior Essencialmente

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo «isto é real», mesmo de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o Mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu Corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Exista para mim - nos momentos em que julgo que efectivamente existe -
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo.

Se a alma é mais real
Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade?
Se é mais certo eu sentir
Do que existir a coisa que sinto-
Para que sinto
E para que surge essa coisa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Coisa por coisa, o Mundo é mais certo.

Mas porque me interrogo, senão porque estou doente?

Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim,
Mas) tão sublimemente não-meu.

Quando digo «é evidente», quero acaso dizer «só eu é que o vejo»?
Quando digo «é verdade», quero acaso dizer «é minha opinião»?
Quando digo «ali está», quero acaso dizer «não está ali»?
E se isto é assim na vida, porque será diferente na filosofia?
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro facto merece ao menos a precedência e o culto.
Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
Se isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

quinta-feira, julho 12, 2007

Livro de Reclamações

Há pessoas que passam a vida a reclamar
queixam-se daquilo e daquel'outro
sentem-se injustiçadas por meio mundo
o outro meio já conspira contra elas
Suporto
mal
A posição de coitadinho não fica bem
nem ao cão tripé cá da zona
Sentem-se incompreendidas mas não se compreendem
esperam que outros façam esse trabalho por elas
porque custa
se ninguém o faz atiram-se pelo caminho mais simples:
o facilitismo na vida dos outros
o mundo é cor da rosa menos o m2 que ocupam
tudo foi mais simples antes de chegarem
sentem-se perseguidas
resta-lhes fugir
não sabem bem para onde
mal sabem para onde
já que o caminho de agir foi por elas encerrado.


uma maneira de justificar fracassos

quinta-feira, julho 05, 2007

Miles Davis: A Essência Da Música

(acompanhe a leitura com o som da vitrola e tempere a gosto.)

Escrever algo de novo sobre Miles Davis não é tarefa fácil. Miles é indiscutivelmente uma das figuras mais importantes da história do trompete, do Jazz e da Música em geral, e como tal, já muito se escreveu sobre ele, a sua vida e obra. A mim, como trompetista, apetece-me antes desfazer alguns dos mitos que se criaram à volta de Miles: “Miles Davis não tinha técnica” e “Miles Davis tocava simples e com poucas notas”.

Toda a minha vida fui confrontado com as minhas limitações técnicas de um lado e com pessoas do outro a dizer “mas o Miles não tinha técnica e tocava como tocava...”. Duma vez por todas, o Miles tem muita técnica, é verdadeiramente um virtuoso! Mas não é tecnicamente exuberante, e a sua técnica imensa consegue passar desapercebida a um ouvido menos atento. A sua grande maturidade musical também contribui para que a sua técnica não sobressaia, quando toca. Miles tem sempre presente as prioridades e a profundidade musical vem para ele acima de tudo. A sua técnica é um meio e não um fim (desculpem-me o cliché).

Mas onde está então essa técnica desmedida? Em primeiro lugar, no seu som. Na qualidade do seu som e na consistência tímbrica a toda a extensão do seu registo. Qualidade de som é técnica, consistência em todo o registo é virtuosismo técnico. Miles é de facto dos poucos trompetistas a conseguir o seu som escuro no registo grave, médio, agudo e super agudo. Dizzy Gillespie é famoso pelo seu Sol agudo, capaz de encher uma sala a um volume ensurdecedor. Miles toca o mesmo Sol agudo frequentemente e chega mesmo a um Lá agudo na famosa versão de “My Funny Valentine” (Four & More, 1964, Columbia). No entanto, ninguém diria que se trata de uma nota tão aguda. Porquê? Porque o seu timbre é escuro e igual ao do seu registo médio. De certa forma, parece que Miles está a tocar num registo médio. Grande virtuosismo técnico a passar desapercebido ao ouvinte.

Miles é possivelmente o único trompetista da história a conseguir fazer o registo super agudo soar como registo médio, sempre escuro, redondo e agradável.

O segundo mito é talvez mais difícil de desfazer. “Miles Davis tocava simples e com poucas notas”. Miles não tocava simples nem com poucas notas, sobretudo se considerarmos a carga musical que cada nota das que Miles toca contém. Usando uma analogia barata e um pouco de aritmética simples, é fácil entender que uma nota de 500 euros vale 10 vezes mais do que 10 notas de 5 euros...

Mas se o que Miles faz não é simples, como pode ser que pareça tão simples? Aqui a questão é um pouco mais delicada. Depois de introduzida a técnica de análise de Schenker (um musicólogo austríaco do começo do Século XX) ficou claro que a música é entendida e processada pelo ouvinte em diferentes níveis de entendimento, sendo que tudo acontece em simultâneo. Correndo o risco de simplificar demasiado os conceitos envolvidos, o que acontece é que num primeiro nível de entendimento ouvimos aquilo que está a ser tocado a cada momento: cada tempo, cada nota, cada acorde. Simultaneamente, num segundo nível de entendimento, o ouvinte vai juntando as peças do que já ouviu e do que está a ouvir, podendo assim tirar o sentido daquilo que ouve. Tempos agrupam-se em compassos e compassos em secções, surgindo então a noção de estrutura de um tema. Notas agrupam-se em frases formando o sentido melódico e acordes agrupam-se para dar a orientação dos movimentos harmónicos. É relacionando o que se ouve nos diferentes níveis de entendimento que se compreende emocionalmente a música. Tudo isto acontece intuitiva e naturalmente em qualquer ouvinte, por mais leigo que seja.

O músico que toca vê acontecer consigo exactamente o mesmo que acabo de descrever para o ouvinte. Aqui Miles Davis distingue-se mais uma vez da grande maioria dos músicos, mesmo os mais geniais. Miles sente a música que toca no segundo nível de entendimento enquanto que outros músicos como Charlie Parker ou John Coltrane (2 génios incontornáveis) claramente “funcionam” no primeiro nível, tocando as escalas e os arpejos de cada acorde que trabalham em cada momento. Claro que para estes, o segundo nível existe, é entendido pelos ouvintes e tudo o que tocam faz grande sentido.

Mas Miles Davis não está preocupado em saber em que acorde vai a música ou que escala ali encaixa. Miles não quer vêr à lupa, prefere antes a visão distanciada. Aquilo que o preocupa é para onde a música vai e qual o sentido profundo da mesma. Conseguir tocar em função duma visão distanciada não é simples nem é fácil e é nesse sentido que Miles é tudo menos simples.

Miles Davis toca a essência da música quando o normal para um músico é tocar a música.


João Moreira
Lisboa, Fevereiro de 2005.


(texto escrito para uma colecção do jornal "O Público")