"O comércio livre foi o elixir da vida capitalista. E fazer dinheiro, e gastá-lo, foi o motor do "american way of life". Os EUA habituaram-se a ter um oásis de dinheiro, mesmo quando havia deserto à volta. Foram os fluxos de dinheiro externos que alimentaram, em grande parte, o sonho de consumo americano.
Já poucos se lembram, nos EUA, daquilo que um dia John F. Kennedy, adaptando uma frase do místico libanês Kahlil Gibran, disse: "não perguntem o que o vosso país pode fazer por vós - perguntem o que podem fazer pelo vosso país".
Era a resposta a essa pequena pergunta que Barack Obama e John McCain, deveriam ter dado na sua última presença televisiva. Perguntaram-lhes, inocentemente, que sacrifícios estavam dispostos a pedir aos americanos. Ambos se esqueceram de responder.
Esta geração de políticos não aprendeu a ripostar a este tipo de perguntas. O discurso político habituou-se a dar coisas boas e não a pedir sacrifícios. Por isso se tornou tão ilusório como a riqueza fictícia que alimentava as veias do sistema financeiro global.
A pobreza da presença televisiva de Obama e de McCain resumiu-se a isto: não podem dar respostas a questões como estas porque têm medo de perder votos. Só que as eleições americanas serão o farol do novo capitalismo. Mas, até lá, ninguém quer dar más noticias. Sabe-se que os americanos não precisam de dúvidas. Deixam essas para os europeus. Querem certezas. A pergunta é simples: quem lidará melhor com a crise? A resposta parece ser cada vez mais evidente"
Fernando Sobral, in Jornal de Negócios